terça-feira, 25 de setembro de 2012

(17)


Entrem, façam favor, venham para a sombra, veio a bisavó atalhar, por entre as videiras baixas, fervorosas então, o verde luminoso das folhas, a Françoise e o Armando, Venham para aqui que está mais fresco, Está um dia de calor que nem se pode. Eu sentei-me a olhar o Armando e a Françoise, e a bisavó explicava as vilanias do calor e o milagre da água fria nos corpos precisados: A água fria faz milagres no calor. Sentaram-se de mão dada e o Armando: Então a Tina sempre se vai casar. Vai, disse a bisavó, parece que decidiu, ou se calhar nem decidiu, mas já está de casamento marcado e é isso que se quer. O Armando parou as palavras e olhou a Torre Eiffel no braço da Françoise. Chama-se Ulisses, é daqui de perto. Sei quem é o Ulisses, respondeu, não o vejo há anos, muitos anos. E a Torre Eiffel no braço da Françoise acertava horas francesas.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

(16)


Ali. Ali o teu sorriso meigo; olhas a Tina: a Tina, a tua irmã mais nova, segue azul, pés descalços, no braço imenso saco, no outro estica-se um guarda-sol. Sabes, Tina, quando assim era - melhor dito, naquela idade - o sol vergastava a pele e chegada a noite doía nos lençóis, doía a pele. As moléstias do sol. Tina. Levas um chapéu de palha na cabeça, avanças lenta e a eternidade pesa-te nas costas porque o Armando: com a polaróide: corre duna acima, estaca à tua frente e eterniza-te o saco, o guarda-sol e o chapéu e o movimento e o sol escondido e o azul. A Françoise surpreende-se. Fala. Sabes, Françoise, penso nisto: não deveria permitir que fales nessa língua que desconheço; sou quem te escreve as memórias, não devia permitir. Mas tu falas, ignoras-me. Não escrevo o que dizes (quase ficou: escrevo-te com o desenho das ondas do mar: ~~~~), mas o Armando transporta-te ao colo e tu levas as mãos à cabeça e ao cabelo e ao lencinho colorido. Sabes, Françoise, não devia permitir. Tu encolhes os ombros e seguras na malinha, as mãos como canguru. Lá ao fundo, as rochas negras da maré vaza formam filas de gente fúnebre. Cláudia. Devia voltar a ti porque a Tina pediu. Sabes, Cláudia, ainda és muito nova nesta história, quase ainda por aparecer, embora já te tenha falado lá atrás. Pouco de ti se sabe. Ainda é muito cedo para ti. Mas já se sabe: tu e o teu sorriso e o copo branco na mão e o mar por trás de ti, calculo que o mar (de vez em quando, lembro-me tão bem: o assobio do carro da Augusta, pedia umas meias para coser, por vezes um casaco, a tua mãe Cláudia, e tu no carro de pau, a máquina de Lisboa. Jo-se-fi-na. Foi a Tina quem pediu: veio agora e mandou-me falar de ti.) Lá ao fundo, as pedras negras.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

No novo livro do Manuel António Araújo, O rapaz que lia Rimbaud, há coisas que se leem assim.

O écran cheio do azul dos olhos para ela. Aquele azul que foi de mar e deixou de ser de mar, que foi de água e deixou de ser de água. Na praça da República, naquela noite, pela última vez lhe vira o azul dos olhos, embora fosse de noite os candeeiros amarelos da praça iluminavam-lhe os olhos, já o azul desbotara, mas continuava a ser um azul só possível de encontrar nos azuis dum catálogo de azuis invulgares. Por isso arrepiou-se quando na televisão, a que subiu o som, diziam que apanharam o monstro. Era ele! Lá estava o fato no fio e a maneira invulgar como caminhava.

O rapaz que lia Rimbaud, Manuel António Araújo, Lugar de Palavra, 2012

quarta-feira, 23 de maio de 2012

(15)

Disse o fotógrafo: Por favor, juntem-se mais, os convidados mais para a direita, a senhora avó da noiva à frente, tem uma cadeira. E a bisavó, furiosa do calor, o brilho das fitas a correr atrás, o chapéu do lado de cima da cabeça, como se a puxassem, a obrigassem ao andar esforçado, ameaçou: Vá lá a ver. Levantou o pescoço, ficou a ver do cimo de quem era pequeno e repetiu: Vá lá a ver que é tarde, mas mais baixo como se já estivesse preparada e só faltasse a fotografia. A tia: Tina. A tia sem cara de tia mas com cara de noiva sorriu sentada depois de olhar para ela, talvez antes, nem se percebeu. Atrás está o Armando, de pé. Veio por estas alturas, mais cedo do que o costume, prefere Agosto, galgou a fronteira, atravessou Espanha inteira para ver a tia sem cara de tia mas com cara de noiva, vestia um fato escuro, uma camisa vermelha muito viva e na cabeça um chapéu muito amassado, mantém um bigode à frente da boca que não cessa de coçar, dá o braço à Françoise (nunca soube ao certo se Françoise, sempre Françoise, porque assim deveria ser, o nome era outro mas esse não ficou, ninguém acreditou noutro nome, de modo que a Françoise passou a chamar-se assim), o colar de pérolas ventaneadas ligadas entre si por douradas flores minúsculas, a mãozita a cruzar-se com o braço do Armando. Os olhos abertos do Armando. A boca vermelha da Françoise, o branco dos olhos a queixar-se do sol, cerra-os, de modo a que só a cor azul: parecem o céu, Armando, os olhos da Françoise parecem o céu.

Estou ao lado da mãe. Na fotografia, estou ao lado da mãe.

Um dia destes vais comigo a Paris, Chico. Aquilo é que é.

O Armando pisca os olhos enquanto fala, e quanto mais fala mais pisca os olhos, como que acompanhando a saída das palavras da boca. Eu respondo-lhe que não sei onde é e viro-me. O azul do céu nos olhos da Françoise e a delicadeza das maçãs do rosto, diz-se rouge, um tom muito liso na pele, não fala, não precisa, mesmo que precisasse: Que diz a Françoise, Armando? Diz que o casamento está lindo. Mas a Françoise só sabe dizer isso, Armando, pergunta-lhe a avó. Olha, diz-lhe que isto está um calor que não se aguenta, talvez para Agosto fique melhor; isto é tempestade.

Estou ao lado da mãe.

O avô, também sentado, descansa do mancar, estica a perna, gira o pé, chega-se à frente e os dedos no pé, alisa as meias, alivia o aperto. Levou os óculos que lhe caem para a frente do nariz, guardava-os para ver melhor a filha: Deixa cá ver-te. Olha-a por todos os ângulos, e sentencia: Pareces uma noiva. E a tia: Diga-me lá se não estou bem, pai. Depois sai a mancar e vai para o quintal, aguenta o choro uns dois minutos no alpendre e depois decide: Pronto, já chega. E chega de novo a mancar. Está sentado a coçar a perna, ao lado da tia, alonga o braço ao pé.

Estou ao lado da mãe.

Chico, repete o Armando, qualquer dia vais comigo a Paris.

sexta-feira, 16 de março de 2012

(14)

O longo deserto que vai da casa preta aos mortos foi percorrido durante dois dias seguidos pelo meu avô. Disse assim: vou atravessar o deserto; do outro lado está um cavalo morto, morreu de sede, levo-lhe água e alimento-o durante dois dias e duas noites para ver se o ressuscito, e ao terceiro dia trago-o nos braços. Acordou bem cedo naquela manhã em que a avó bebe hortelã: o cheiro a hortelã na rua: calçou sapatos pretos, a sua melhor camisa branca, leves riscas, botões reluzentes, calças de fazenda para que o frio não lhe parasse as pernas; a tiracolo segura uma mala, água, pão, carne. Sentei-me ao lado da avó e vi-o desaparecer para lá da placa que confirmava a terra. O avô vai atravessar o deserto até ao lugar dos mortos para ressuscitar um cavalo, digo-lhe. E tu, que fazes aqui? Vai com ele, ordenou-me a avó. Da casa preta ao lugar dos mortos são duas noites e dois dias, é apenas permitido descansar durante cinco minutos num lugar à sombra aparado das temperaturas do deserto: uma casinha muito branca, trespassada de luz: durante cinco minutos apenas, nem mais um segundo: o corpo não deixa: no deserto o corpo desobedece ao dono.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

(13)

Ela fala-me (não sei o que diz, mas este é o som do que diz: fala de Paris, das ruas intermináveis, das montras coloridas, do céu gordo de Paris, da Avenida dos Campos Elísios e da cor da casa: a certa hora do dia a refracção ilumina a prateleira onde expõe as fotografias: o pai sério e carrancudo encostado ao carro, um pneu furado travou o percurso, braços gordos cruzados, calças grandes ao umbigo, o cabelo não aparenta arranjo possível, e a mãe magra e pequenina como um gnomo luta pelos dentes com uma maçã: a maçã ganha: a boca é bem menor: prolonga o braço para o chão como o apontasse: o pó pinta a fotografia e o cabelo raro da mãe esvoaça sem direcção: a porta está aberta e dentro papéis espalhados: 1968: a Françoise empunha a maquineta por detrás da fotografia, o lugar a partir do qual fotografou. Diz: É domingo, saímos para ir ao lago ao piquenique. Acabáramos de montar o pneu suplente – como vês, está ali o pneu furado, encostado sem préstimo ao pneu bom -, e o meu pai não está nada contente porque gosta de ir cedo à pesca, tem a cana no porta-bagagem; não está mesmo nada contente; àquela hora:
o pai:
1. estaria sentado e treslera o jornal;
2. bebera meio xaropezinho;
3. pescara peixe algum e impacientara-se;
4. definira novas estratégias de pesca após consultar outros pescadores;
5. amaldiçoara o lago pela infertilidade;
e a mãe:
1. sentara-se à sombra do toldo branco a vigiar-me;
2. limara e pintara as unhas;
e eu:
1. fotografara o lago;
2. desaprovara a temperatura da água com o dedo do pé;
mas
se o pai:
1. não se sentara nem treslera o jornal;
2. não bebera meio xaropezinho;
3. não pescara peixe algum e nem se impacientara;
4. não definira novas estratégias de pesca após consulta de outros pescadores;
5. não amaldiçoara o lago pela infertilidade;
e a mãe:
1. não se sentara à sombra do toldo branco a vigiar-me;
2. não limara e nem pintara as unhas;
e eu:
1. não fotografara o lago;
2. não desaprovara a temperatura da água com o dedo do pé;
então:
os pais subiram ao monte, levantaram o tijolo à entrada do moinho, apontaram trementes a chave à fechadura, rodaram-na excitados, despiram-se e amaram-se, e a Françoise ficou entregue à madame Marie, a mulher enorme de mãos borbulhonas que os pais da Françoise conhecem há já vinte anos. Está naquela fotografia do lago.)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

(12)

O escuro da casa deixou de o ser quando. A mãe agarrada ao terço por Santa Bárbara, a avó de assento impassível via por entre a chuva a chegada das sombras, o salgueiro do rio vergava, a bisavó caminhava impaciente de um lado para o outro, que tinha mais que fazer do que aturar troada absurda assim. Absurda, a troada. Não a disseste assim, avó; não avó: bisavó. Não a disseste absurda, que absurdo se a dissesses absurda. Nem ridícula. Disseste coisa qualquer, um barulho com a boca e Ai que chovem sapatos - Ai que chovem sapatos, disse a avó: a bisavó -, e as marcas das palavras enegrecem a sala, consumam o facto: a terra subira às nuvens. Chove mais aqui do que no céu, logo a estrada será lamaçal imundo e os animais morrerão de água, escorrerão ribeiro abaixo. Não diga isso, avó, diz a mãe. Ainda o pai andava nos alicerces de uma obra, não estou certo se nos alicerces. A que horas vem ele, pergunta a avó. O relógio da sala responde: quatro horas de um dia de tempestade. Lá vem ele, diz a mãe. A sombra aquática trouxe a imagem do pai encolhido em si. Abriu a porta e entrou. Vinha a caminho quando, diz ele. Não usava mais calções aos joelhos nessa altura, as pernas cresceram-me, e ao olhar para baixo ainda os pés trocam o lugar, tentando encontrar acerto. Vinha a caminho quando, repete o pai, e fica parado, como pudéssemos andar ao redor dele sem que se mexesse.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

(11)

os pais subiram ao monte, levantaram o tijolo à entrada do moinho, apontaram trementes a chave à fechadura, rodaram-na excitados, despiram-se e amaram-se, e a Françoise ficou entregue à madame Marie, a mulher enorme de mãos borbulhonas que os pais da Françoise conhecem há já vinte anos. Está naquela fotografia do lago. O marido de madame Marie chama-se Jacques Henri e não sabe nadar, o que não lhe trava o impulso da água. Junto ao tanque, no canto da fotografia, podemos vê-lo a ensaiar um salto para o lago. A sombra nos pés de Jacques Henri, que lhe fazem parecer os pés maiores do que o esperado, é musgo. Jacques Henri não gosta daquele musgo porque já nele escorregou duas vezes: na primeira vez, aos dez anos, o pai disse-lhe: Henri, tira o chapéu da cabeça; na segunda vez, Marie, com quem namorava há três meses, gritou-lhe Espera por mim, espera por mim. Nas duas vezes, Jacques Henri dirigiu-se ao médico chinês que lhe disse que não devia saltar de costas para a água e aconselhou chá. O pai da Françoise, antigo campeão de natação, já desafogou Jacques Henri, tendo-lhe dito coisa semelhante. Não recomendou chá. O pai de Françoise, antigo campeão de natação, afogou-se na água da banheira na imprópria manhã fria de um sábado dez de fevereiro de mil novecentos e noventa, no apartamento da Rue Lucien Sampaix, por cima da frutaria do marroquino. O marroquino tirou-o da água e correu a telefonar à ambulância: os seus pés pequeninos marcaram rápidos o soalho de madeira brilhante acabado de lavar, levantou o auscultador e só depois se lembrou que não falava francês nem qualquer outra língua: um bando armado tomou-lhe de assalto a casa infantil numa manhã imprópria de verão no ano de mil novecentos e sessenta – lembra-se como se tivesse sido no dia anterior: a mãe preparava o pequeno-almoço na panela e uma rajada de metralhadora atirou-a para o lume, que começou a borbulhar sangue; fuzilaram o pai e cortaram a língua ao filho; a mais nova escondera-se no telhado, dentro da gaiola dos pássaros, e foi ela quem levou o irmão dali para fora. Nunca mais quer voltar a Marrocos, morrerá fulminado por um relâmpago do céu gordo de Paris, assim o espera. O marroquino largou o telefone e voltou ao quarto de banho, e fez por avisar que ia à rua pedir ajuda. O pai da Françoise não teve acordo possível e, talvez por isso, nunca mais faltou fruta em casa da Françoise. Não tem qualquer fotografia do marroquino. A Françoise odeia-o profundamente porque:




  1. cheira mal;

  2. é incómodo;

  3. não se lembra da terceira razão.


Diz também que a casa nunca mais cheirou bem, como se as paredes vivessem em peste constante, que regurgita a respiração: o cheiro que o marroquino trouxe, acrescenta. À mãe da Françoise não lhe cheira a nada, provavelmente devido à extensão do canal olfactivo (tem um canal olfactivo minúsculo e nada propenso a cheiros pestilentos – isto é uma explicação dela, não muito sério e para dar por acabado o assunto).

quarta-feira, 13 de julho de 2011

(10)

Os pássaros furam a parede pela madrugada, e uma luz leve e terna nasce do chão e ilumina as paredes brancas, tão mais amarelas quão amarela é a luz de madrugadas assim, as dos pássaros que furam a parede. Muito cedo: passos: a avó surda e os sapatos açoitam o chão, as socas violentas, salvo uma tira de cabedal perto de violeta que amacia a pancada de os olhar, dirige-se porta fora, e o som das socas vai atrás, obediente a quem por elas calca o chão: entre o chapéu de fitas e a camisa aparece a cara da avó que diz: Vá a ver, que são horas, é tarde, já se fez dia. Esta é a bisavó, chamo-lhe sempre avó, tem algures entre o chapéu e a camisa uma cara risonha e matreira, a mesma com que diz ressuscitar a dias certos de maio, certa de que a velhice não dura sempre, mas mais nada a fazer que não rir. Ela repete-se: Vá a ver, que são horas, já se fez dia. Quando abre a porta, o cheiro da hortelã: o cheiro ao chá da avó espalha-se na casa. A manhã cheira a hortelã. Há quanto tempo foi o casamento da tia? Ainda agora lá estava, avó. E tu nem me respondes, ocupada a beber o chá sem açúcar. Sentas-te num banco tão pequeno quanto tu. A porta da rua ficou aberta e o teu olhar alonga-se ao fundo da rua. Viras-te para trás e perguntas: Que queres daqui? Não tens mais nada que fazer? Vai lá para dentro, continua a dormir, ou então sonha lá com o casamento da tua tia, tanto me faz. (A forma como contorce o pescoço: fá-lo como conseguisse rodar completamente a cabeça. Aquela não és tu, aquela és tu depois de morrer, quando os ossos largam a cartilagem. Repetes o chá e estou nas tuas costas, as socas calaram-se desde que estás sentada à porta, os pés juntos. Deixa de reparar nos meus pés, dizes ao mesmo tempo que bebes.)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Nunca quis morrer num sábado ao sol

Nunca quis morrer num sábado ao sol
. Digo: asas de vento
(a memória da tua voz
: encontramo-nos na foz, na rocha escondida); e
a paz das palavras, deixa que te conte: sossega
acalma amorna abraça abranda. Digo: há
velocidades mais absolutas talvez que
as do movimento interno das asas: asas
dentro no corpo como bichos roendo
a pele, roendo o sangue, berrando à
saída. Digo: não morrerei num sábado ao sol.
E a certeza interna dos prazos menores da
vida esconde-se atrás da pedra dura rija
fria: digo: soubesse eu das asas do vento
carinhoso sobre a pele sobre a pele sabendo da pele.
Um mar passa longo, e dentro das vagas a memória desmaia.
Digo: há portas talvez mais velozes pelo movimento interno das asas
para o céu; e o movimento é este:

~~~~~~.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

(excerto 9)

Francisco.


Ainda o meu nome:


Francisco. Dito assim parece muito grande, tão grande quanto: a porta do quarto, uma ou outra camisola, a lã tão fofa, a sacola, e as peúgas, onde as peúgas, mãe?


Francisco.


Prefiro assim: Chico: é lá coisa que se diga, diz a avó - deixa-te estar, avô: falo da bisavó, que diz defender nomes por maiores que sejam, devias saber: é o do pai, do pai dela, o que faz dele meu trisavô: avô, bisavô, trisavô. Parece que lhe caiu seco saco de farinha em cima, branco, muito branco, muito direito e a cadeira. Lívido. Sempre que o penso surge lívido. O Francisco. Lívido como eu e nada contente. Melhor: descontente, desarticulado, diz a avó que ele mancava de uma perna: um dia a trabalhar, pesada barra de ferro estragou-lhe o joelho para todo o sempre, mesmo depois de morrer manca do ferro que lhe ficou gravado no osso. Lembro-me, diz a avó, melhor: a bisavó: Estava em casa e era ainda garota muito pequena, de volta de umas brincadeiras, agora as crianças nem sabem brincar, dantes é que era, que isto agora não presta para nada, quer dizer, nem brincávamos, trabalhávamos, mas quando brincávamos, brincávamos, sabes, Francisco, nunca fui criança nem nada, trouxeram-no uns quatro homens de braçado, ele que era grande como um toiro apareceu pela porta enfezado como um coelho abatido na caça, ainda a pingar sangue, e eu parada sem perceber nada; fiquei tão assustada, o meu pai, o meu pai chamava-se Francisco e nunca mais foi o mesmo, depois disso perdeu o direito a ser homem por inteiro, isto na cabeça dele, até o olhar mudou, era alto, ou melhor, não era alto, parecia muito alto, os ombros puxados para trás, e eu cheguei-me ao pé dele e ele deu-me a mão, lembro-me tão bem, e ele deu-me a mão e riu, riu-me e depois disse-me Está tudo bem, menina, vai lá cuidar das tuas coisas, anda.


A cadeira baloiça vazia.


Ao lado da porta, range por um dos lados e pelo outro aumenta o volume, range muito muito mais, as peúgas, que raio, as peúgas. Em que horas da manhã ia? Era manhã. O chá. A hortelã. A avó. O banco. O sol a nascer. O cheiro. Os sapatos parados da avó. Não me chegou a dizer que o avô foi para o deserto. Disse-me assim: o teu avô foi embora. E o sol a nascer. Não quero saber, avó. Sabes que idade tenho agora? Cresci muito, quando olho para baixo já vejo o mundo de longe, vejo-o de crescido, já não me mete impressão andar com os pés aos tropeções, já nem. E as peúgas, avó. Estava a roupa encolhida a um canto do quarto. O pai também foi logo que a noite se acobardou. Cálculos debaixo do braço, a mala já deve ter o tempo contado, saltou uma alça, a outra faz que resiste, uma tímida linha, quase nem se vê, fica de fora, impune, a resistir ao tempo, e disse antes de ir: Até logo, chego tarde. Deu um beijo à mãe e deixou-a a dormir: nem a dormir: talvez não a dormir: vejo daqui as peúgas – o nome que as peúgas têm -, e a mãe não. Não. A mãe não volta a dormir. Vira-se para um lado, vira-se para o outro. O aro escuro da porta que ficou depois de ires. O aro da porta faz que é a porta inteira, já desapareceu a abertura, fica a roupa pendurada na porta e a mãe: Francisco: vê-me de olhos abertos na cama ao lado porque eu. De muito pequeno. Vai para a tua cama, dizes muito baixo e eu levanto-me e o buraco volta ao aro da porta quando a abro, a roupa atrás. Fecha-se.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

(excerto 8)

Tina, a Françoise afasta-se agora com o pai e com a mãe e comigo pela mão, e olho para trás, para a manta que és, tolhida de frio, dizes Fico bem e acenas, ali está o teu acenar, despedindo-se. Na feira há muita gente, as frutas, os peixes – para quê peixe se uns metros acima o mar? uma cana de pesca, um barco e uma rede e o peixe logo ali, parece tontice -, o pão, os brinquedos, a Françoise, mãos como canguru e o espanto das cores, onde o Armando?, não o tenho por esta memória, por certo na barraca nos frangos, por certo no meio do fumo, por certo por perto. O vermelho dos lábios da Françoise, o jeitinho de um passo à frente de outro passo, como os pés a qualquer momento pudessem cair deslocar-se partir; Françoise: caminhas como quem vai partir pés pernas. A mãe silenciosa, não se encontra aqui o som da mãe a falar, como se desprovida de palavras e de outros sons, uma enorme mãe silenciosa, presente, mãe. O pai segue à frente, leva as mãos nos bolsos, assobia e olha as bancas. A mãe pára, pergunta silenciosa, escolhe isto e aquilo, pega na saca, abre a carteira, tira o dinheiro, recebe o troco, guarda o troco, fecha a carteira, guarda a carteira, e o pai assobia olha vê e diz que sim. As mãos de canguru da Françoise. Pára ela de saltar, escolhe uma lojinha de roupinhas e carteirinhas e malinhas e tudo pequeno, parecem as medidas encolhidas, Françoise: és assim tão pequena?, e contempla admira observa estuda analisa examina. A vendedora: O que vai ser, menina? A Françoise:             . A vendedora: A menina precisa de ajuda? A Françoise:            . Françoise, apressa-te a falar, e se não souberes aponta, desembrulha as mãos de canguru. A Françoise aponta e a mulher recolhe uma malinha vermelha azul laranja. A Françoise abre a carteira tira o dinheiro entrega o dinheiro recebe o troco guarda o troco, o Armando aparece e diz-lhe. Vou proibir-te de falares assim também, Armando. Eu sigo pequeno, a mãe silenciosa tem-me pela mão, uns três quatro cinco anos, não sei se mais, parecem as memórias deslocadas da idade. Agora já posso falar do pónei cavalo, Tina. Depois da feira e da praia e da areia, nada de particular em falar da areia, ainda os lábios roxos, Tina. Ainda me cansará teu nome; imagina, sempre Tina, é um exagero.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

(excerto 7)

Como só mais à frente o suão te levará, a tia está agora contigo, avô. Rodam os botões do fogão para ver se aquilo faz sentido, que as batatas querem uma cozedura exacta, agarras nas tuas mãos, avô, entrelaças os dedos, e com o cotovelo abres a torneira, continuas a rodar os dedos, muito cuidadosamente, como usasses instrumento tomado de alguém: na parede prega-se o cabide e limpas as mãos à toalha. Deve ter sido ainda antes do Santo Amaro, quando o tio levou o braço perto do sol a espreitar a cor do vinho e a tia, contrafeita, recupera a cara de zangada como antes do Santo Amaro. E, Cláudia, apareces meio aos tropeções, como era antes de. A fotografia está meio torta, meio de esguelha, mas não é isso que te impede, o muro está atrás de ti e o copo: branco: uma espécie de manto branco: o quintal da casa acaba numa vedação de arame, logo depois da casinha onde a tia, as videiras fazem uso das folhas para tapar a visão, mas sempre um buraco ou outro, através do qual: a outra casa: pouco se percebe, uma entrada pequena, acanhada, uma janela tosca, vasos de flores e um tapete estendido ao sol no cordão baloiça, espreguiça-se, branco como manto: a Augusta, que sempre o será, mesmo sendo tua mãe, estacionou o carro de pau, a máquina que trouxe a custo de Lisboa, por meio do teu tio que casou com a Josefina (diz-se muito devagar para saborear o nome: Jo-se-fi-na), e dobra-se sobre si mesma, primeiro com as mãos, cose roupa, forma uma pilha ao lado, e faz-se à máquina, pedala com genica e acerta as mãos para esticar a roupa e passar no buraco onde a máquina cose, é muito rápida, parecem os dedos ir e vir, ir e vir, como tivesse nascido com aquele movimento nas mãos, e a pequena Cláudia, que pertencia ao colo da Augusta, apoiava as mãozitas no carro, e tem a cara muito suja, parece a terra ter-lhe nascido nos olhos, e olha profundamente a Augusta: aquela és tu, Cláudia, é Julho, logo depois da ressurreição da avó, é um dia canicular. Cá em casa há muita gente, o portão está aberto, um tapete de flores e alecrim tapa o chão.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

(excerto 6)

As casas acordam aos poucos das nuvens, choveu ainda ontem: ainda ontem: as janelas fechadas, nem os cães na rua, recolheram-se algures, agora é vê-los aparecer, ainda vem o pêlo encharcado cheirando a cão: as janelas abrem timidamente, as caras ressuscitam da penumbra, trazem a sombra agarrada às pestanas e as faces pálidas de quando chove, sorriem timidamente, os dentes mostram-se em sorrisos: Já está sol, vem ver o sol, que dia se pôs para a festa: depois abrem-se ainda mais as janelas como quando se abre a boca para o dentista e ele vê tudo aquilo lá por dentro, ao fundo as amígdalas, as lareiras ainda acesas, as cadeiras e os sofás vermelhos, e os tapetes no chão, e escorre toda esta luz para a rua como que guardada durante a chuva. Bom dia, como está, fulana tal, pergunta a tia, parece que o dia se pôs bom, que isto de chuva não é coisa de se ter numa festa, depois segue caminho, e eu penso-a também como uma fotografia: uma fotografia de boca aberta: não bem uma fotografia: para a tia seriam duas, três ou quatro, de modo a que formássemos imagens animadas – uma imitação da boca a abrir e a fechar continuamente. Como fosse censura o que digo, que não é – era a música que faltava para falar do dia, na tua boca, o dia depois da chuva tinha milhares de cambiantes, infinitas formas de ser dita, ocasionalmente rias porque fulana tal ia vestida daquela maneira, isto ao longe, quando fulana tal ainda não te podia perceber as palavras, quando chegavas perto cumprimentavas muito séria, a cara sóbria, sem ponta de expressão e conseguias segurá-la durante dois, três ou quatro passos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Mulher arrastando uma furiosa bicicleta sobre a ponte outonal de Saint Exupéry, em Paris

Os secos braços de Marjorie forçam a furiosa marcha da bicicleta sobre a ponte fria de Saint Exupéry, em Paris. A ponte é feita de pedras. As pedras magoam muito quando batem com velocidade. As pedras também magoam muito quando alguém lhes bate furiosamente. Da cara de Marjorie escorre sangue para o rio.


(No Outono, o Sena reclama afogados. Todos os anos, quando água mais fria banha as margens, o entristecimento da luz empurra gente para o fundo do rio, onde o lodo as recolhe em braços quentes. O Sena é um rio de mulheres, sobretudo; rejeita os homens: nadam para as margens ou agarram-se aos barcos de recreio que pululam de turistas encasacados. [Quis a mão de Deus que Henri de Vicariate encontrasse refúgio num desses barcos, o La poulette, onde duas japonesas (chinesas, tailandesas?), Ling (?) e Lang (?), melancólicas órfãs recolhidas pelo engenheiro que acertou o relógio nos primeiros telemóveis, lhe sorriram e o fotografaram como de artista famoso se tratasse. Henri de Vicariate devolveu o sorriso. Na margem, Nougete procurou desesperadamente o seu amado.])


Marjorie caminha sobre andas metálicas, alongando as pernas ao chão com um gafanhoto. Baixa-se muito para alcançar com as mãos o guiador, formando angular corcunda nas costas. À cabeça transporta um chapéu amarelo enfeitado a penas de pavão.


(No Outono, o Sena sussurra melodias de embalar; dizem convocar corações partidos.


Eis alguns exemplos:




  1. Elena Cardailac – desaparecida no Sena a 27 de Outubro de 1879. Não mais foi vista.

  2. Isabelle Marival - desaparecida no Sena a 2 de Novembro de 1945. A 3 de Novembro foi vista, nua, caminhando sob a luz crua da Igreja de Notre Dame.

  3. Adeline Marie – desaparecida no Sena a 17 de Novembro de 1899. A 19 de Novembro saiu do rio e mordeu um homem que passeava na margem. O homem morreu.

  4. Michelle Chapelle – desaparecida no Sena a 29 de Novembro de 1900. Entre os dias 3 e 4 de Dezembro, sentou-se, imóvel, num banco do parque público de Saint Exupéry.)


Marjorie passa em frente ao anexo pardacento onde Krief sacia a fome nas fartas mamas de Nougete. Do outro lado da rua, e através das janelas do Hospital de Saint Exupéry, repara Marjorie, uma enfermeira esbofeteia violentamente uma mulher.

Mulher arrastando uma furiosa bicicleta sobre a ponte outonal de Saint Exupéry, em Paris

Os secos braços de Marjorie forçam a furiosa marcha da bicicleta sobre a ponte fria de Saint Exupéry, em Paris. A ponte é feita de pedras. As pedras magoam muito quando batem com velocidade. As pedras também magoam muito quando alguém lhes bate furiosamente. Da cara de Marjorie escorre sangue para o rio.

(No Outono, o Sena reclama afogados. Todos os anos, quando água mais fria banha as margens, o entristecimento da luz empurra gente para o fundo do rio, onde o lodo as recolhe em braços quentes. O Sena é um rio de mulheres, sobretudo; rejeita os homens: nadam para as margens ou agarram-se aos barcos de recreio que pululam de turistas encasacados. [Quis a mão de Deus que Henri de Vicariate encontrasse refúgio num desses barcos, o La poulette, onde duas japonesas (chinesas, tailandesas?), Ling (?) e Lang (?), melancólicas órfãs recolhidas pelo engenheiro que acertou o relógio nos primeiros telemóveis, lhe sorriram e o fotografaram como de artista famoso se tratasse. Henri de Vicariate devolveu o sorriso. Na margem, Nougete procurou desesperadamente o seu amado.])

Marjorie caminha sobre andas metálicas, alongando as pernas ao chão com um gafanhoto. Baixa-se muito para alcançar com as mãos o guiador, formando angular corcunda nas costas. À cabeça transporta um chapéu amarelo enfeitado a penas de pavão.

(No Outono, o Sena sussurra melodias de embalar; dizem convocar corações partidos.

Eis alguns exemplos:

  1. Elena Cardailac – desaparecida no Sena a 27 de Outubro de 1879. Não mais foi vista.

  2. Isabelle Marival - desaparecida no Sena a 2 de Novembro de 1945. A 3 de Novembro foi vista, nua, caminhando sob a luz crua da Igreja de Notre Dame.

  3. Adeline Marie – desaparecida no Sena a 17 de Novembro de 1899. A 19 de Novembro saiu do rio e mordeu um homem que passeava na margem. O homem morreu.

  4. Michelle Chapelle – desaparecida no Sena a 29 de Novembro de 1900. Entre os dias 3 e 4 de Dezembro, sentou-se, imóvel, num banco do parque público de Saint Exupéry.)


Marjorie passa em frente ao anexo pardacento onde Krief sacia a fome nas fartas mamas de Nougete. Do outro lado da rua, e através das janelas do Hospital de Saint Exupéry, repara Marjorie, uma enfermeira esbofeteia violentamente uma mulher.

domingo, 27 de março de 2011

Mulher olhando o céu castanho de Outubro através das grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris

Pelas grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, a mãe de Krief olha agora o céu de um Outubro castanho. Há um sorriso muito bonito a bailar-lhe nos lábios e as pálpebras transmitem a serenidade da contemplação. Subitamente, grita: KRIEF! E pára. De novo: o sorriso: o sorriso da mãe de Krief imita a tranquilidade das folhas de Outubro e saudosamente acaricia as grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, como acariciasse os dedos de Krief. Opções viáveis: Frio> acaricia as grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, como acariciasse os dedos frios de Krief; Morte> acaricia as grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, como acariciasse os dedos mortos de Krief; Mármore> acaricia as grades do Hospital de Saint Exupéry, em Paris, como acariciasse os dedos marmóreos de Krief.


Do outro lado do muro, aquele que separa o Hospital de Saint Exupéry, em Paris, do resto do mundo, o pequeno Krief é amamentado por uma gorda loira sentada na cama de um anexo pardacento. A loira chama-se Nougete; veste espartilho vitoriano e fuma cigarretes brancas através de uma boquilha oferecida pelo conde Henri de Vicariate, assim ele se apresentou. Disse-lhe o conde numa noite de lua cheia, passeando os dois junto ao Sena: Minha cadelinha virtuosa, a luz dos teus cabelos ilumina Paris. Nougete sorriu. Henri de Vicariate pigarreou. Nougete olhou-o amorosamente. Henri de Vicariate cofiou o bigode. Nougete desejou, olhando as estrelas, a eternidade do momento. Henri de Vicariate afinou a voz e trauteou La vie en rose. Nougete desejou fervorosamente um filho de Henri de Vicariate. Henri de Vicariate tropeçou e caiu ao Sena; veio a salvar-se agarrando-se a um barco de recreio. Nougete não mais o viu. Henri de Vicariate não mais a procurou.


No Hospital de Saint Exupéry, em Paris, a mãe de Krief abre o caderno e anota:


Qual das dores a maior: perder o filho que se teve ou não perder o filho que não se teve?


PERGUNTA DE FUNDO: em que altura da história dos homens se transformou a dor em sofrimento?


Na cama do anexo pardacento, Krief alimenta-se sofregamente nas mamas de Nougete - as mamas de Nougette são como cascos de navio.


250 metros a norte, um homem encontra o seu destino. Corre para casa, enche a banheira de água fria e tenta afogar-se. Falha estupendamente. Esse homem é Henri de Vicariate.


 

segunda-feira, 21 de março de 2011

(excerto 5)

Aquela grande casa ficou. Ficou aqui a bater-me na memória. Tia, que casa era aquela? E a tia aparece e explica-me novamente: Aquela era a casa de uma quinta, e desaparece novamente, porque a melodia dela acabou. Ficou-me ainda a mão agarrada a ti, os teus dedos duros, como só ossos, o anel claro e brilhante, grosso, por onde esgotou todo o dinheiro, comprado no ourives, que veio cá a casa e ficou a mostrar-lhe os anéis todos, as pulseiras, lindos colares, grossos, ouro muito fino, abriu a maleta e disse A senhora só tem de escolher, e ficaste a olhar espantada, vejo-o ainda à porta comida pelas pombas, não bem as pombas: pela merda das pombas, abriu o ourives a maleta para deslumbramento da tia, todos os anéis lhe passaram pelos dedos, escolhia um, olhava-o cheio de respeito e depois largava-o cuidadosamente, muito atenta, nem olhava o ourives, fazia tudo como estivesse a mexer no dinheiro dos outros e depois virava lentamente as costas e suspirava, levantava dedo e anel, media-lhe o brilho e perguntava meio à espera de um preço que não poderia pagar: Quanto é? Fechava os olhos do desgosto do preço e o ourives dizia-lhe que não se preocupasse, que pagaria depois, que pagaria por várias vezes, e a tia deslumbrada, cega pelo brilho dos anéis. Só depois de dez visitas, sempre o sorriso safirado do ourives, se decidiu por aquele, um que o ourives apenas trouxe à décima visita, como soubesse desde o início que aquele seria o escolhido. A avó quedava-se também por ali, mais de fantasma que de assunto para tratar: levava o xaile preto e cruzava os braços como dissesse: Eu não percebo nada disso: não percebia mesmo. Sabia apenas o valor do oiro que levava ao pescoço e todas as jóias se diriam comparadas com o fio de oiro: estacava um passo atrás, incomodada com o gasto de dinheiro que dali sairia. Quando o ourives foi embora pela última vez deixou-te uma caixa de veludo que acrescentou valor ao anel: abria-la muito vagarosamente, não desviava nunca o olhar: primeiro espreitavas, depois abrias e confirmavas a permanência do anel, depois mostravas a quem quisesse ver e admirar tão bonito anel: dizias assim: Não é lindo o meu anel, foi o mais lindo que o ourives trouxe, só o escolhi à décima visita, o homem veio cá todos os santos dias com a maleta carregada, e só à décima vez é que eu disse para mim: é este, é este que eu quero, eu sabia por que tinha demorado tanto tempo na escolha, havia um perfeito para mim. Não é lindo, esticavas muito o dedo, favorecias o anel com a exposição ao sol, um gesto altivo de admiração e sorrias percebendo a admiração das pessoas. Esticavas ainda mais o dedo e puxavas ligeiramente a manga da camisola, como fosse coisa que não ajudava ao elogio do anel. Os teus dedos duros, tia, sinto ainda o anel à medida que vamos passando pelas pessoas, tu cumprimentas, dizes boa tarde, e a tua mão e os teus dedos agarram-se aos meus. Que casa é aquela, pergunto de novo (fui buscar-te novamente a memória pelos dedos: estendeu-se ao resto do corpo, à roupa: um casaco ainda de frio, castanho, meio que grosso, daqueles que desconfiam das temperaturas e por isso dão para tudo, uma camisa branca subida ao colarinho e a formar espécie de bordado apertado ao pescoço, e a saia preta, ou quase preta, meias opacas mas a imitar pele, sapatos também pretos para dizer com o preto da saia, os tacões já com salpicos de lama) e tu não me ouviste no meio da pergunta porque só estavas de corpo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

(excerto 4)

(...) Vou muito pequeno, tão pequeno, a mais pequena das crianças, explica a professora: A mais pequena das crianças – sabe-se que é ela porque nesta frase o tom é mais profundo cavernoso; a voz da professora, só mais um exemplo: Meninos, todos calados. Comecei na escola aos 6 anos, talvez 2 anos depois do Verão da Françoise. Estás na outra carteira, Cláudia, era assim que se dizia na escola primária: carteira, do outro lado da sala. Mas não quero passar o tempo muito à frente, embora a voz da professora: Dois vezes dois, Francisco?, é uma voz forte grave, impõe-se ao assunto. Deverei dizer-lhe: Cale-se. Não tenho coragem. A professora Feliciana morreu numa noite escura de Inverno, sozinha com os gatos, uns 10. Mas não quero falar dela. Deveria dizer-lhe, talvez apareça mais vezes. Agora está morta e não fala.


Correm verdes os anos 80, e a professora, a professora Feliciana, manda que se faça um desenho. Estás na outra carteira, um bibe rosa, umas florzinhas vermelhitas, e no pulso uma fita azul de nós mal dados. Agarras com força nos lápis de cor (pareço eu deslocar-me ao teu lugar para te ver desenhar gigantesca flor: Cláudia, as flores são bem mais pequenas que as pessoas: desenhas uma mulher com um carrinho de mão, as flores trepam crescem agigantam-se, cobrem o carrinho e a mulher – a tua mãe, Cláudia?) Volta para o teu lugar, Franciso - esta é a voz gorda da professora Feliciana, o dia está quente, ainda Setembro, os pássaros desprendem-se dos ramos ressumados das árvores – no espaço do recreio, um burburinho de asas apressa-se. E eu agarro no lápis afiado e na afiadeira e nos meus pés e volto à carteira. Na classe da professora Feliciana – durante a noite, ouvia-lhe a voz grossa, juro, dizendo-me: Dois vezes dois?


 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Cosmogonia segundo Aristoxeminicrates (fragmento)

"Nunca o mar grego se afundou junto ao Cáucaso."

Aristoxeminicrates (300 a.C.-260 a.C.)