quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Mulher parindo um filho no Outubro de uma tarde francesa, no parque público de Saint Exupéry, em Paris

Krief nasceu no Outubro de uma tarde francesa, no parque público de Saint Exupéry, em Paris, enquanto pombas de asas geladas arrulhavam pedaços de pão faminto. Sua mãe, aflita nos estertores de uma gravidez incómoda e inesperada – e por distracção descoberta ao oitavo mês -, apoiou as mãos nuas na pedra do banco, primeiro a direita, depois a esquerda, e finalmente o dorso imenso e quase a estoirar de carne, e pensou: Posição cómoda para parir é abrir as pernas e esperar. Pensou ainda: Este jardim é muito bonito. Pensou também: Ai! A mãe de Krief dizia pensar a dor; inventariava e coleccionava dores, digamo-lo assim. Puxou o caderno preto do bolso do casaco felpudo, aguçou o lápis com os dentes, e escreveu: A dor de parto no Outubro de uma tarde francesa, no parque público de Saint Exupéry, em Paris, enquanto pombas de asas geladas arrulham pedaços de pão faminto, é uma dor difusa e irreal, como víssemos a partir de um plano superior uma mulher parindo um filho a quem deitará o nome de Krief, apoiando as mãos nuas na pedra do banco, primeiro a direita e depois a esquerda, e finalmente o dorso imenso e quase a estoirar de carne, enquanto pombas de asas geladas arrulham pedaços de pão faminto, é diferente da dor de parto de quem tem um filho numa maternidade ou mesmo em casa. Acrescentou: E é infinitamente triste. Cerrou com força as mãos nuas e gritou. As pombas não voaram.



Originalmente publicado aqui: http://estrolabio.blogs.sapo.pt

sábado, 25 de dezembro de 2010

Anaxímenes e Anaximandra

Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrates, saltava à corda durante a noite, interrompendo fortuitamente o sono. Patrocinou, durante os anos quentes de 510 e 511 a. C., o coração esvoaçante de Anaximandra, com quem passeava na Alameda dos Gerânios, sem que desfrutasse do sucesso avançados encómios.

Imune ao perfume dos gerânios que, julgava Anaxímenes, derrubaria a porta do mais esvoaçante dos corações, Aximandra patrocinava por seu turno, e em sigilo, o coração do famoso artífice da pedra,  Anaximénios.

Anaxímenes e Anaximénios, não obstante a proximidade dos nomes, jamais se cruzaram. Nem sempre os nomes se mostram atenciosos para com as leis da predestinação (que, neste caso, assentam na semelhança dos nomes e são, por isso, puramente arbitrárias: por exemplo, um burro e um búfalo partilham as duas primeiras letras e não se conhecem histórias que explorem o facto).

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

(excerto 3)

(...) Eu sigo pequeno, a mãe silenciosa tem-me pela mão, uns três quatro cinco anos, não sei se mais, parecem as memórias deslocadas da idade. Agora já posso falar do pónei cavalo, Tina. Depois da feira e da praia e da areia, nada de particular em falar da areia, ainda os lábios roxos, Tina. Ainda me canso do teu nome; imagina, sempre Tina, é um exagero. Levas-me pela mão e agarras-me, e o homem debaixo daqueles panos, escondido, que faz ali, assunto secreto, um plano só dele sabido, e as mãos, que figura ele faz. No passeio calçada, que embaraço. E eu em cima do pónei - cavalo, corrige a Tina. À frente a igreja do santo, um deles, o dos pescadores, que jura purgar as madeiras de barco dos males da água: o telhado em madeira, as paredes em madeira, os altares em madeira, os santos em madeira, toda a madeira escolhida para servir na capela do santo. Um deles. O céu azul. Levantou-se o manto espesso da neblina e as rochas como gente fúnebre fogem para dentro do mar e abrigam peixes. As caras antes matinais juram comer o sol que lhes sopra de feição. Mas volto ao pónei cavalo: fotografias expostas revelando o talento das mãos esquiando no ar do fotógrafo, diz-se profissional, Celso Torres, profissional de fotografia, diz assim num cartão; não: um cartaz que encima as fotografias. Ali o menino do Freud, a camisinha branca; logo ao lado, estalando de carne, uma menina ri das rosáceas da mãe segurando-lhe com força de anémona os braços roliços. Ri, marota alegre os braços roliços, parece a mãe amparar-lhe a vontade, e ela segurando-se com a força dos braços roliços da mãe. Ao lado da menina braços roliços amparada por força de anémona, ao lado do menino que teme cavalos póneis e outros que tal, o Henriquinho, invento-lhe agora um nome, para não ser só o que tem medo de e a que é amparada por e etc., espeta um dedo no nariz, o pequeno dedo como que amparando o ranho, cara de fúria, de quem diz Não quero nada disto, não quero nada disto, tirem-me daqui – atrás o pai, braços em cruz, ri, as figuras que os pais fazem. E a Tina ri do meu espanto, do meu espanto do Celso Torres, do meu espanto do pónei cavalo e há uma explosão e fico sem ver e abro muito os olhos. Tina, quase morrias, desgraçada.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

Anatomia simplificada de um poema

Cabeça do poema.

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Corpo do poema.

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Pés do poema.

Som homem cabeça porta

O vento entrou silencioso pelo canto da porta, a madeira a ranger meio que rangia, ainda a ouvir-se uma pequena farpa escondida de som, de qualquer som, um pequeno ranger, foi todo o ranger que se ouviu, a entrar devagar, o canto da porta a deixar-se enganar pelo ranger, pelo frio, devagar pela porta, um pequeno som quase inaudível, perto do não som, e o sol a fugir pela frincha, pelo canto, a porta que deixava entrar o ranger que não o ouvia o homem sentado à mesa, a porta e o telhado e o prato perto de mortos, a colher caída, como o som lhe fizesse companhia, as mãos na cabeça e o som, a cozinha, Vem, que não ouço, veio o ranger despertar-me ou nem o sei, dizia, a cabeça a rasar o prato e o ranger, as mãos na cabeça e o ranger a recrudescer, a cozinha e as paredes e os pratos perto da cabeça do homem, homem cabeça, o ranger da porta, o tempo que ela demorou a chegar, devagar, um pé no outro, cuidadoso, a tactear parede rugosa, o ranger da porta que rangia, Vem, que não ouço, Vem, que não te ouço, e veio um ranger ainda maior que o ranger, zuniu furioso a estalar o som, já não perto do não som, mais perto do som que do não som, e o homem de cabeça nas mãos, nos pratos, na cozinha, na mesa da cozinha, as paredes que ela vinha tacteando, as rugas, as farpas, furioso o ranger que invadia a cozinha, o homem as mãos na cabeça os pratos pelo canto da porta, de nada lhe vale porque o vento, o vento que não tem som, o vento assobia nas frinchas, nas arestas, nos cantos da porta, a porta que não estala mas perto, o vento a empurrá-la com fúria, Vem, que o vento, diz, e ela chega, agarra-lhe nas mãos e na cabeça e nos pratos e na mesa da cozinha e olha-o, o homem as mãos na cabeça, na falta de som, ou no excesso de som, o que veio pelo canto da porta, da porta da cozinha, virada ao vento veloz furando mais furioso, um pequeno som inaudível agigantando-se, e todos os sons deixam de ser silêncio, todo e qualquer pequeno bulir já não agulha surda no chão, salto de pulga, agora um vendaval, mais que uma interminável banda momentos antes do espectáculo, momentos antes da melodia, como tudo o que houvesse fosse um grande e único som que não se percebe, tão perto do silêncio como da brutalidade e ela disse assim Vem que o som, o som que vem pela porta, que o som pelo canto da porta não te incomode, homem mãos na cabeça, a cabeça perto do prato, da mesa, da mesa da cozinha.


Vários, Atelier dos sentidos, Chiado Editora, 2010