O escuro da casa deixou de o ser quando. A mãe agarrada ao terço por Santa Bárbara, a avó de assento impassível via por entre a chuva a chegada das sombras, o salgueiro do rio vergava, a bisavó caminhava impaciente de um lado para o outro, que tinha mais que fazer do que aturar troada absurda assim. Absurda, a troada. Não a disseste assim, avó; não avó: bisavó. Não a disseste absurda, que absurdo se a dissesses absurda. Nem ridícula. Disseste coisa qualquer, um barulho com a boca e Ai que chovem sapatos - Ai que chovem sapatos, disse a avó: a bisavó -, e as marcas das palavras enegrecem a sala, consumam o facto: a terra subira às nuvens. Chove mais aqui do que no céu, logo a estrada será lamaçal imundo e os animais morrerão de água, escorrerão ribeiro abaixo. Não diga isso, avó, diz a mãe. Ainda o pai andava nos alicerces de uma obra, não estou certo se nos alicerces. A que horas vem ele, pergunta a avó. O relógio da sala responde: quatro horas de um dia de tempestade. Lá vem ele, diz a mãe. A sombra aquática trouxe a imagem do pai encolhido em si. Abriu a porta e entrou. Vinha a caminho quando, diz ele. Não usava mais calções aos joelhos nessa altura, as pernas cresceram-me, e ao olhar para baixo ainda os pés trocam o lugar, tentando encontrar acerto. Vinha a caminho quando, repete o pai, e fica parado, como pudéssemos andar ao redor dele sem que se mexesse.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
(11)
os pais subiram ao monte, levantaram o tijolo à entrada do moinho, apontaram trementes a chave à fechadura, rodaram-na excitados, despiram-se e amaram-se, e a Françoise ficou entregue à madame Marie, a mulher enorme de mãos borbulhonas que os pais da Françoise conhecem há já vinte anos. Está naquela fotografia do lago. O marido de madame Marie chama-se Jacques Henri e não sabe nadar, o que não lhe trava o impulso da água. Junto ao tanque, no canto da fotografia, podemos vê-lo a ensaiar um salto para o lago. A sombra nos pés de Jacques Henri, que lhe fazem parecer os pés maiores do que o esperado, é musgo. Jacques Henri não gosta daquele musgo porque já nele escorregou duas vezes: na primeira vez, aos dez anos, o pai disse-lhe: Henri, tira o chapéu da cabeça; na segunda vez, Marie, com quem namorava há três meses, gritou-lhe Espera por mim, espera por mim. Nas duas vezes, Jacques Henri dirigiu-se ao médico chinês que lhe disse que não devia saltar de costas para a água e aconselhou chá. O pai da Françoise, antigo campeão de natação, já desafogou Jacques Henri, tendo-lhe dito coisa semelhante. Não recomendou chá. O pai de Françoise, antigo campeão de natação, afogou-se na água da banheira na imprópria manhã fria de um sábado dez de fevereiro de mil novecentos e noventa, no apartamento da Rue Lucien Sampaix, por cima da frutaria do marroquino. O marroquino tirou-o da água e correu a telefonar à ambulância: os seus pés pequeninos marcaram rápidos o soalho de madeira brilhante acabado de lavar, levantou o auscultador e só depois se lembrou que não falava francês nem qualquer outra língua: um bando armado tomou-lhe de assalto a casa infantil numa manhã imprópria de verão no ano de mil novecentos e sessenta – lembra-se como se tivesse sido no dia anterior: a mãe preparava o pequeno-almoço na panela e uma rajada de metralhadora atirou-a para o lume, que começou a borbulhar sangue; fuzilaram o pai e cortaram a língua ao filho; a mais nova escondera-se no telhado, dentro da gaiola dos pássaros, e foi ela quem levou o irmão dali para fora. Nunca mais quer voltar a Marrocos, morrerá fulminado por um relâmpago do céu gordo de Paris, assim o espera. O marroquino largou o telefone e voltou ao quarto de banho, e fez por avisar que ia à rua pedir ajuda. O pai da Françoise não teve acordo possível e, talvez por isso, nunca mais faltou fruta em casa da Françoise. Não tem qualquer fotografia do marroquino. A Françoise odeia-o profundamente porque:
- cheira mal;
- é incómodo;
- não se lembra da terceira razão.
Diz também que a casa nunca mais cheirou bem, como se as paredes vivessem em peste constante, que regurgita a respiração: o cheiro que o marroquino trouxe, acrescenta. À mãe da Françoise não lhe cheira a nada, provavelmente devido à extensão do canal olfactivo (tem um canal olfactivo minúsculo e nada propenso a cheiros pestilentos – isto é uma explicação dela, não muito sério e para dar por acabado o assunto).
quarta-feira, 13 de julho de 2011
(10)
Os pássaros furam a parede pela madrugada, e uma luz leve e terna nasce do chão e ilumina as paredes brancas, tão mais amarelas quão amarela é a luz de madrugadas assim, as dos pássaros que furam a parede. Muito cedo: passos: a avó surda e os sapatos açoitam o chão, as socas violentas, salvo uma tira de cabedal perto de violeta que amacia a pancada de os olhar, dirige-se porta fora, e o som das socas vai atrás, obediente a quem por elas calca o chão: entre o chapéu de fitas e a camisa aparece a cara da avó que diz: Vá a ver, que são horas, é tarde, já se fez dia. Esta é a bisavó, chamo-lhe sempre avó, tem algures entre o chapéu e a camisa uma cara risonha e matreira, a mesma com que diz ressuscitar a dias certos de maio, certa de que a velhice não dura sempre, mas mais nada a fazer que não rir. Ela repete-se: Vá a ver, que são horas, já se fez dia. Quando abre a porta, o cheiro da hortelã: o cheiro ao chá da avó espalha-se na casa. A manhã cheira a hortelã. Há quanto tempo foi o casamento da tia? Ainda agora lá estava, avó. E tu nem me respondes, ocupada a beber o chá sem açúcar. Sentas-te num banco tão pequeno quanto tu. A porta da rua ficou aberta e o teu olhar alonga-se ao fundo da rua. Viras-te para trás e perguntas: Que queres daqui? Não tens mais nada que fazer? Vai lá para dentro, continua a dormir, ou então sonha lá com o casamento da tua tia, tanto me faz. (A forma como contorce o pescoço: fá-lo como conseguisse rodar completamente a cabeça. Aquela não és tu, aquela és tu depois de morrer, quando os ossos largam a cartilagem. Repetes o chá e estou nas tuas costas, as socas calaram-se desde que estás sentada à porta, os pés juntos. Deixa de reparar nos meus pés, dizes ao mesmo tempo que bebes.)
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Nunca quis morrer num sábado ao sol
. Digo: asas de vento
(a memória da tua voz
: encontramo-nos na foz, na rocha escondida); e
a paz das palavras, deixa que te conte: sossega
acalma amorna abraça abranda. Digo: há
velocidades mais absolutas talvez que
as do movimento interno das asas: asas
dentro no corpo como bichos roendo
a pele, roendo o sangue, berrando à
saída. Digo: não morrerei num sábado ao sol.
E a certeza interna dos prazos menores da
vida esconde-se atrás da pedra dura rija
fria: digo: soubesse eu das asas do vento
carinhoso sobre a pele sobre a pele sabendo da pele.
Um mar passa longo, e dentro das vagas a memória desmaia.
Digo: há portas talvez mais velozes pelo movimento interno das asas
para o céu; e o movimento é este:
~~~~~~.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
(excerto 9)
Francisco.
Ainda o meu nome:
Francisco. Dito assim parece muito grande, tão grande quanto: a porta do quarto, uma ou outra camisola, a lã tão fofa, a sacola, e as peúgas, onde as peúgas, mãe?
Francisco.
Prefiro assim: Chico: é lá coisa que se diga, diz a avó - deixa-te estar, avô: falo da bisavó, que diz defender nomes por maiores que sejam, devias saber: é o do pai, do pai dela, o que faz dele meu trisavô: avô, bisavô, trisavô. Parece que lhe caiu seco saco de farinha em cima, branco, muito branco, muito direito e a cadeira. Lívido. Sempre que o penso surge lívido. O Francisco. Lívido como eu e nada contente. Melhor: descontente, desarticulado, diz a avó que ele mancava de uma perna: um dia a trabalhar, pesada barra de ferro estragou-lhe o joelho para todo o sempre, mesmo depois de morrer manca do ferro que lhe ficou gravado no osso. Lembro-me, diz a avó, melhor: a bisavó: Estava em casa e era ainda garota muito pequena, de volta de umas brincadeiras, agora as crianças nem sabem brincar, dantes é que era, que isto agora não presta para nada, quer dizer, nem brincávamos, trabalhávamos, mas quando brincávamos, brincávamos, sabes, Francisco, nunca fui criança nem nada, trouxeram-no uns quatro homens de braçado, ele que era grande como um toiro apareceu pela porta enfezado como um coelho abatido na caça, ainda a pingar sangue, e eu parada sem perceber nada; fiquei tão assustada, o meu pai, o meu pai chamava-se Francisco e nunca mais foi o mesmo, depois disso perdeu o direito a ser homem por inteiro, isto na cabeça dele, até o olhar mudou, era alto, ou melhor, não era alto, parecia muito alto, os ombros puxados para trás, e eu cheguei-me ao pé dele e ele deu-me a mão, lembro-me tão bem, e ele deu-me a mão e riu, riu-me e depois disse-me Está tudo bem, menina, vai lá cuidar das tuas coisas, anda.
A cadeira baloiça vazia.
Ao lado da porta, range por um dos lados e pelo outro aumenta o volume, range muito muito mais, as peúgas, que raio, as peúgas. Em que horas da manhã ia? Era manhã. O chá. A hortelã. A avó. O banco. O sol a nascer. O cheiro. Os sapatos parados da avó. Não me chegou a dizer que o avô foi para o deserto. Disse-me assim: o teu avô foi embora. E o sol a nascer. Não quero saber, avó. Sabes que idade tenho agora? Cresci muito, quando olho para baixo já vejo o mundo de longe, vejo-o de crescido, já não me mete impressão andar com os pés aos tropeções, já nem. E as peúgas, avó. Estava a roupa encolhida a um canto do quarto. O pai também foi logo que a noite se acobardou. Cálculos debaixo do braço, a mala já deve ter o tempo contado, saltou uma alça, a outra faz que resiste, uma tímida linha, quase nem se vê, fica de fora, impune, a resistir ao tempo, e disse antes de ir: Até logo, chego tarde. Deu um beijo à mãe e deixou-a a dormir: nem a dormir: talvez não a dormir: vejo daqui as peúgas – o nome que as peúgas têm -, e a mãe não. Não. A mãe não volta a dormir. Vira-se para um lado, vira-se para o outro. O aro escuro da porta que ficou depois de ires. O aro da porta faz que é a porta inteira, já desapareceu a abertura, fica a roupa pendurada na porta e a mãe: Francisco: vê-me de olhos abertos na cama ao lado porque eu. De muito pequeno. Vai para a tua cama, dizes muito baixo e eu levanto-me e o buraco volta ao aro da porta quando a abro, a roupa atrás. Fecha-se.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
(excerto 8)
Tina, a Françoise afasta-se agora com o pai e com a mãe e comigo pela mão, e olho para trás, para a manta que és, tolhida de frio, dizes Fico bem e acenas, ali está o teu acenar, despedindo-se. Na feira há muita gente, as frutas, os peixes – para quê peixe se uns metros acima o mar? uma cana de pesca, um barco e uma rede e o peixe logo ali, parece tontice -, o pão, os brinquedos, a Françoise, mãos como canguru e o espanto das cores, onde o Armando?, não o tenho por esta memória, por certo na barraca nos frangos, por certo no meio do fumo, por certo por perto. O vermelho dos lábios da Françoise, o jeitinho de um passo à frente de outro passo, como os pés a qualquer momento pudessem cair deslocar-se partir; Françoise: caminhas como quem vai partir pés pernas. A mãe silenciosa, não se encontra aqui o som da mãe a falar, como se desprovida de palavras e de outros sons, uma enorme mãe silenciosa, presente, mãe. O pai segue à frente, leva as mãos nos bolsos, assobia e olha as bancas. A mãe pára, pergunta silenciosa, escolhe isto e aquilo, pega na saca, abre a carteira, tira o dinheiro, recebe o troco, guarda o troco, fecha a carteira, guarda a carteira, e o pai assobia olha vê e diz que sim. As mãos de canguru da Françoise. Pára ela de saltar, escolhe uma lojinha de roupinhas e carteirinhas e malinhas e tudo pequeno, parecem as medidas encolhidas, Françoise: és assim tão pequena?, e contempla admira observa estuda analisa examina. A vendedora: O que vai ser, menina? A Françoise: . A vendedora: A menina precisa de ajuda? A Françoise: . Françoise, apressa-te a falar, e se não souberes aponta, desembrulha as mãos de canguru. A Françoise aponta e a mulher recolhe uma malinha vermelha azul laranja. A Françoise abre a carteira tira o dinheiro entrega o dinheiro recebe o troco guarda o troco, o Armando aparece e diz-lhe. Vou proibir-te de falares assim também, Armando. Eu sigo pequeno, a mãe silenciosa tem-me pela mão, uns três quatro cinco anos, não sei se mais, parecem as memórias deslocadas da idade. Agora já posso falar do pónei cavalo, Tina. Depois da feira e da praia e da areia, nada de particular em falar da areia, ainda os lábios roxos, Tina. Ainda me cansará teu nome; imagina, sempre Tina, é um exagero.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
(excerto 7)
Como só mais à frente o suão te levará, a tia está agora contigo, avô. Rodam os botões do fogão para ver se aquilo faz sentido, que as batatas querem uma cozedura exacta, agarras nas tuas mãos, avô, entrelaças os dedos, e com o cotovelo abres a torneira, continuas a rodar os dedos, muito cuidadosamente, como usasses instrumento tomado de alguém: na parede prega-se o cabide e limpas as mãos à toalha. Deve ter sido ainda antes do Santo Amaro, quando o tio levou o braço perto do sol a espreitar a cor do vinho e a tia, contrafeita, recupera a cara de zangada como antes do Santo Amaro. E, Cláudia, apareces meio aos tropeções, como era antes de. A fotografia está meio torta, meio de esguelha, mas não é isso que te impede, o muro está atrás de ti e o copo: branco: uma espécie de manto branco: o quintal da casa acaba numa vedação de arame, logo depois da casinha onde a tia, as videiras fazem uso das folhas para tapar a visão, mas sempre um buraco ou outro, através do qual: a outra casa: pouco se percebe, uma entrada pequena, acanhada, uma janela tosca, vasos de flores e um tapete estendido ao sol no cordão baloiça, espreguiça-se, branco como manto: a Augusta, que sempre o será, mesmo sendo tua mãe, estacionou o carro de pau, a máquina que trouxe a custo de Lisboa, por meio do teu tio que casou com a Josefina (diz-se muito devagar para saborear o nome: Jo-se-fi-na), e dobra-se sobre si mesma, primeiro com as mãos, cose roupa, forma uma pilha ao lado, e faz-se à máquina, pedala com genica e acerta as mãos para esticar a roupa e passar no buraco onde a máquina cose, é muito rápida, parecem os dedos ir e vir, ir e vir, como tivesse nascido com aquele movimento nas mãos, e a pequena Cláudia, que pertencia ao colo da Augusta, apoiava as mãozitas no carro, e tem a cara muito suja, parece a terra ter-lhe nascido nos olhos, e olha profundamente a Augusta: aquela és tu, Cláudia, é Julho, logo depois da ressurreição da avó, é um dia canicular. Cá em casa há muita gente, o portão está aberto, um tapete de flores e alecrim tapa o chão.